Criei um joguinho para celular. Chama-se Symbolum. E essa história não começou de agora.
Já em 2011, escrevi sobre vídeo games aqui no blog – e já desconfiava que os melhores jogos não eram os mais rápidos, mas os que te faziam pensar devagar.
Pulei para 2021. Em "A Grande Onda" – uma postagem que publiquei aqui. Naquele texto, eu mostrava dados: o mercado de apps movimentaria US$ 6,3 trilhões naquele ano. O Brasil estava na vanguarda entre os países emergentes. 60% dos adultos já tinham um smartphone no bolso. E uma frase me ficou ecoando até hoje: “os aplicativos móveis agora estão substituindo os websites”.
Eu não sabia, na época, que algum dia estaria escrevendo exatamente para anunciar o meu próprio aplicativo.
O Symbolum é fruto dessa onda. Mas também é fruto de águas mais antigas. A experiência, com lápis e papel, desde o Sudoku que adquiri, por curiosidade, numa livraria.
Esses dois fantasmas – 2011 e 2021 – me acompanharam enquanto eu amadurecia a ideia. Porque o Symbolum, como está agora, é um app que só pôde nascer quando eu entendi que acessibilidade não é facilitar, é remover obstáculos desnecessários.
Os números eram obstáculos. Troquei por nove símbolos de teclado: @ # $ % & ? * + ~. Eles estão ali, familiares, cotidianos. Mas não julgam.
Lá atrás, em "CAÇAR COMO GATO" (15/01/2011), falei sobre paciência felina. O Symbolum é isso: você observa a grade, espera, clica. Cada símbolo no lugar certo é um movimento silencioso. Não há barulho de comemoração, não há cronômetro na versão base. Há apenas a satisfação de completar.
Em "FLOR DE PITANGUEIRA" (03/09/2025), lembrei da Ilha de Itamaracá, do tempo que a gente perdia sem pressa. O Symbolum resgata esse tempo perdido. Você pode passar quinze minutos numa mesma grade, testando hipóteses, apagando, recomeçando. O app não te apressa. Não te pune. Porque o benefício não está na velocidade, está na concentração sustentada – algo que crianças com TDAH e adultos ansiosos tanto precisam treinar.
Pensei também em "SENTENÇA" (16/09/2025). Números são sentenças. Eles condenam antes do julgamento. O Symbolum substitui o tribunal por uma conversa entre teclas. A ? pergunta. O & conecta. O % lembra percentual, mas não exige que você calcule nada. É só um símbolo, ocupando seu lugar.
Os benefícios, agora com o app finalizado, são concretos:
· Memória de trabalho: o jogador precisa manter ativos, ao mesmo tempo, quais símbolos já usou na linha, na coluna e no bloco.
· Flexibilidade cognitiva: errar é parte do processo. Testar, corrigir, aprender.
· Redução da ansiedade matemática: sem números, o gatilho desaparece. Estudos mostram que pessoas com discalculia evitam qualquer tarefa que envolva algarismos. O Symbolum é uma porta de entrada.
· Acessibilidade real: o app roda offline, não pede cadastro, não coleta dados, não exibe anúncios invasivos. Funciona em qualquer celular, mesmo os mais simples.
E tem mais: não há tempo limite. Você pode jogar no seu ritmo. Isso é fundamental para pessoas neurodivergentes, que muitas vezes precisam de pausas, de retomar o foco, de repetir sem pressão.
O que me clareou as ideias nessa caminhada foram as parábolas que publiquei em "PARÁBOLAS MODERNAS" (23/07/2025). O Symbolum é uma parábola moderna, não é? Ele ensina, sem dizer que está ensinando, que cada símbolo tem seu lugar e não pode invadir o espaço do outro. Isso é ética, não só lógica. É um jogo sobre limites, sobre organização, sobre respeito à ordem.
E, no fundo, sobre uma questão de classe, como escrevi em "POR UMA QUESTÃO DE CLASSE" (15/02/2026). O Symbolum é um app que cria um novo território para quem sempre foi excluído dos jogos de lógica tradicionais. Crianças com discalculia, adultos com TDAH, idosos que querem manter o cérebro ativo. Não é um jogo para gênios. É um jogo para pessoas.
A versão final do Symbolum já está em teste. E deverá estar disponível em breve na Play Store.
E me conta, depois: a última vez que você se concentrou por dez minutos seguidos para jogar, foi quando?
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Referências históricas:
Vídeo games (postagem de 2011) 2011 Origem da reflexão sobre jogos e lentidão
A Grande Onda (postagem de 2021) 2021 Metáfora do padrão, repetição, movimento contido
CAÇAR COMO GATO 15/01/2011 Paciência, observação, presença
PARÁBOLAS MODERNAS 23/07/2025 Ensinamento sem didatismo
FLOR DE PITANGUEIRA 03/09/2025 Tempo perdido, lentidão proposital
SENTENÇA 16/09/2025
Números como julgamento
POR UMA QUESTÃO DE CLASSE 15/02/2026
Inclusão, território, resistência
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