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segunda-feira, 18 de maio de 2026

SYMBOLUM

Criei um joguinho para celular. Chama-se Symbolum. E essa história não começou de agora. 

Já em 2011, escrevi sobre vídeo games aqui no blog – e já desconfiava que os melhores jogos não eram os mais rápidos, mas os que te faziam pensar devagar. 
Pulei para 2021. Em "A Grande Onda" – uma postagem que publiquei aqui. Naquele texto, eu mostrava dados: o mercado de apps movimentaria US$ 6,3 trilhões naquele ano. O Brasil estava na vanguarda entre os países emergentes. 60% dos adultos já tinham um smartphone no bolso. E uma frase me ficou ecoando até hoje: “os aplicativos móveis agora estão substituindo os websites”.

Eu não sabia, na época, que algum dia estaria escrevendo exatamente para anunciar o meu próprio aplicativo.

O Symbolum é fruto dessa onda. Mas também é fruto de águas mais antigas. A experiência, com lápis e papel, desde o Sudoku que adquiri, por curiosidade, numa livraria.

Esses dois fantasmas – 2011 e 2021 – me acompanharam enquanto eu amadurecia a ideia. Porque o Symbolum, como está agora, é um app que só pôde nascer quando eu entendi que acessibilidade não é facilitar, é remover obstáculos desnecessários.

Os números eram obstáculos. Troquei por nove símbolos de teclado: @ # $ % & ? * + ~. Eles estão ali, familiares, cotidianos. Mas não julgam.

Lá atrás, em "CAÇAR COMO GATO" (15/01/2011), falei sobre paciência felina. O Symbolum é isso: você observa a grade, espera, clica. Cada símbolo no lugar certo é um movimento silencioso. Não há barulho de comemoração, não há cronômetro na versão base. Há apenas a satisfação de completar.

Em "FLOR DE PITANGUEIRA" (03/09/2025), lembrei da Ilha de Itamaracá, do tempo que a gente perdia sem pressa. O Symbolum resgata esse tempo perdido. Você pode passar quinze minutos numa mesma grade, testando hipóteses, apagando, recomeçando. O app não te apressa. Não te pune. Porque o benefício não está na velocidade, está na concentração sustentada – algo que crianças com TDAH e adultos ansiosos tanto precisam treinar.

Pensei também em "SENTENÇA" (16/09/2025). Números são sentenças. Eles condenam antes do julgamento. O Symbolum substitui o tribunal por uma conversa entre teclas. A ? pergunta. O & conecta. O % lembra percentual, mas não exige que você calcule nada. É só um símbolo, ocupando seu lugar.

Os benefícios, agora com o app finalizado, são concretos:

· Memória de trabalho: o jogador precisa manter ativos, ao mesmo tempo, quais símbolos já usou na linha, na coluna e no bloco.
· Flexibilidade cognitiva: errar é parte do processo. Testar, corrigir, aprender.
· Redução da ansiedade matemática: sem números, o gatilho desaparece. Estudos mostram que pessoas com discalculia evitam qualquer tarefa que envolva algarismos. O Symbolum é uma porta de entrada.
· Acessibilidade real: o app roda offline, não pede cadastro, não coleta dados, não exibe anúncios invasivos. Funciona em qualquer celular, mesmo os mais simples.

E tem mais: não há tempo limite. Você pode jogar no seu ritmo. Isso é fundamental para pessoas neurodivergentes, que muitas vezes precisam de pausas, de retomar o foco, de repetir sem pressão.

O que me clareou as ideias nessa caminhada foram as parábolas que publiquei em "PARÁBOLAS MODERNAS" (23/07/2025). O Symbolum é uma parábola moderna, não é? Ele ensina, sem dizer que está ensinando, que cada símbolo tem seu lugar e não pode invadir o espaço do outro. Isso é ética, não só lógica. É um jogo sobre limites, sobre organização, sobre respeito à ordem.

E, no fundo, sobre uma questão de classe, como escrevi em "POR UMA QUESTÃO DE CLASSE" (15/02/2026). O Symbolum é um app que cria um novo território para quem sempre foi excluído dos jogos de lógica tradicionais. Crianças com discalculia, adultos com TDAH, idosos que querem manter o cérebro ativo. Não é um jogo para gênios. É um jogo para pessoas.

A versão final do Symbolum já está em teste. E deverá estar disponível em breve na Play Store.

E me conta, depois: a última vez que você se concentrou por dez minutos seguidos para jogar, foi quando?

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Referências históricas:

Vídeo games (postagem de 2011) 2011 Origem da reflexão sobre jogos e lentidão

A Grande Onda (postagem de 2021) 2021 Metáfora do padrão, repetição, movimento contido

CAÇAR COMO GATO 15/01/2011 Paciência, observação, presença

PARÁBOLAS MODERNAS 23/07/2025 Ensinamento sem didatismo

FLOR DE PITANGUEIRA 03/09/2025 Tempo perdido, lentidão proposital

SENTENÇA 16/09/2025 
Números como julgamento

Inclusão, território, resistência

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terça-feira, 21 de abril de 2026

POR QUE TOMAMOS DECISÕES ERRADAS?



O cérebro humano, produto de milhões de anos de evolução focada na sobrevivência imediata, não está naturalmente preparado para a complexidade do mundo moderno. Essa desconexão entre nossa biologia e nosso ambiente social é o campo fértil para os vieses cognitivos — atalhos mentais que, embora eficientes para decisões rápidas em situações de perigo, frequentemente nos conduzem a erros sistemáticos de julgamento em nosso cotidiano.

Os Alicerces da Pesquisa: O Legado de Kahneman e os Estudos na USP

A revolução no entendimento sobre como decidimos começou com os psicólogos Daniel Kahneman e Amos Tversky. Kahneman, Prêmio Nobel de Economia, demonstrou que nossa mente opera com dois sistemas: o Sistema 1, rápido, intuitivo e emocional; e o Sistema 2, mais lento, deliberativo e lógico. O problema é que o Sistema 1, propenso a erros, domina a maior parte de nossas decisões diárias, levando-nos a interpretações irracionais e distorcidas da realidade.

No Brasil, a Universidade de São Paulo (USP) tem sido um polo importante na investigação desses fenômenos. Pesquisas aplicadas em diversas áreas da universidade revelam como esses vieses permeiam desde decisões corporativas até casos críticos de segurança.

· No ambiente corporativo: Um estudo experimental da USP com gestores e contadores demonstrou que a maioria dos profissionais apresenta o viés de confirmação em seus processos decisórios. Esse viés leva o indivíduo a dar ênfase excessiva às suas próprias crenças, menosprezando informações que tragam evidências contrárias às suas posições, o que pode resultar em decisões prejudiciais ao negócio.
· Na prevenção de acidentes: Uma monografia da Escola Politécnica da USP revelou como os vieses cognitivos, como o viés de confirmação, o viés de disponibilidade e o excesso de confiança, distorcem a tomada de decisão e se tornam a principal causa de incidentes críticos e fatais, tanto dentro quanto fora do ambiente de trabalho.

O Viés de Confirmação e a Busca por Sinais em Redes de Eco

Dentre os dezenas de vieses identificados, o viés de confirmação é um dos mais presentes e perigosos na era digital. Ele é a tendência a buscar, interpretar e lembrar de informações que confirmem nossas crenças preexistentes, ignorando ou rejeitando ativamente as evidências que as contradizem.

Esse comportamento é um mecanismo de autoproteção que nos poupa do desconforto da dissonância cognitiva, mas que nos aprisiona em nossas próprias bolhas de convicção. Nas redes sociais, essa tendência se torna uma armadilha poderosa. Os algoritmos de recomendação, projetados para nos manter engajados, nos mostram predominantemente conteúdos alinhados com nosso histórico de interações. Assim, nossas crenças são constantemente reforçadas, enquanto pontos de vista divergentes são filtrados, criando as chamadas "câmaras de eco" ou "bolhas informacionais".

Pesquisas recentes, como um estudo conduzido em 2025, investigaram justamente como os vieses cognitivos, especialmente o viés de confirmação, influenciam o posicionamento de usuários em ambientes de exposição seletiva de informações nas redes sociais. Os resultados sugerem que esses ambientes têm eficácia comprovada na influência do processo decisório dos indivíduos.

A Imprensa em Decadência e a Sobrevivência do Quarto Poder

Tradicionalmente, a imprensa ocupou o papel de "Quarto Poder", uma força fiscalizadora independente ao lado dos Três Poderes constituídos, com a função de informar a sociedade e vigiar os detentores do poder. No entanto, este modelo enfrenta uma crise profunda. A crise financeira dos grandes grupos de mídia enfraquece as redações, a precarização do trabalho desprotege os profissionais e uma crise de identidade corrói o reconhecimento e a confiança do público.

Nesse vácuo de autoridade e credibilidade, as redes sociais assumiram o papel de principal fonte de informação para grande parte da população, não por sua confiabilidade, mas por sua capacidade de gerar engajamento e reforçar os vieses de seus usuários. A lógica mercadológica das plataformas, que prioriza o conteúdo mais emocional e polarizador para maximizar cliques, é profundamente danosa. Estudos mostram que a combinação entre desinformação e vieses cognitivos torna os eleitores mais suscetíveis à manipulação, especialmente quando expostos a conteúdos que confirmam crenças prévias ou que apresentam forte apelo emocional. A sobrevivência da imprensa como um verdadeiro "Quarto Poder" depende de sua capacidade de resistir a essa lógica e se reinventar como um antídoto confiável contra a desinformação, em vez de mais uma fonte de conteúdo para alimentar as chamas da polarização.

Caminhos para a Clareza em Meio ao Ruído

Reconhecer a existência desses vieses e a vulnerabilidade a eles é o primeiro e mais crucial passo para mitigar seus efeitos. Algumas estratégias práticas incluem:

1. Buscar ativamente o contraditório: Expor-se deliberadamente a fontes de informação com viés oposto ao seu e a argumentos bem fundamentados que desafiem suas crenças.
2. Desacelerar o julgamento: Praticar a pausa de 5 segundos antes de compartilhar ou endossar uma informação, questionando a própria reação emocional inicial.
3. Adotar a humildade epistêmica: Substituir a certeza inabalável pela consciência dos limites do próprio conhecimento, admitindo a possibilidade de estar errado.
4. Valorizar o jornalismo de qualidade: Apoiar e consumir veículos de imprensa que ainda praticam a checagem de fatos, a investigação aprofundada e a apresentação de contextos, em vez de apenas ecoar opiniões.

O desafio de tomar decisões acertadas em um mundo complexo não é eliminarmos nossos vieses — o que é impossível —, mas aprendermos a identificar seus sinais e a construir mecanismos que nos protejam de seus efeitos mais danosos.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

POR UMA QUESTÃO DE CLASSE

Esta é uma imagem poderosíssima — ela dialoga com identidade, território, festa, resistência e ocultamento. 

Podemos fazer a análise em três camadas: estética, sociopolítica e cinematográfica.

🎭 1. A Fantasia Multicultural – Entre o Mangue e o Far West

A composição visual é um mosaico simbólico:

Chapéu cônico de palha oriental que remete ao leste asiático, camponês, trabalho rural, coletividade.

Lenço de chita/floral nordestina do Brasil popular, feira, forró, xita, cultura de resistência.

Óculos escuros que trás o anonimato urbano, distanciamento, ícone pop.

Jaqueta de couro que expressa a rebeldia rock’n’roll, estética marginal, cinema noir.

Escadaria colonial festiva (ar de Olinda) do barroco tropical, carnaval, espaço público de performance.

Essa sobreposição cria uma identidade híbrida: nem herói, nem vilão — mas um personagem que transita entre o popular e o simbólico.

É uma fantasia que fala de disfarce como linguagem social.

🎧 2. Em diálogo com "Monólogo ao pé do ouvido"
A música Monólogo ao Pé do Ouvido de Chico Science já traz essa ideia de fala íntima, quase conspiratória — uma voz que não grita para a massa, mas sussurra estratégia.

O personagem da imagem parece exatamente alguém que: Não revela o rosto (a palavra é mais importante que a face).

Sabe circular entre mundos.

Veste códigos culturais como quem manipula linguagens.

No manguebeat, identidade nunca é pura — é colagem.

Aqui, o chapéu oriental com o floral nordestino cria um “samurai do mangue”, um “cangaceiro globalizado”.

🧨 3. Banditismo por questão de classe.
No Brasil, o bandido sempre foi narrado por classe:

• Cangaço como reação à estrutura agrária.
• Malandro urbano como sobrevivente do sistema.
• “Bandido bom é bandido morto” como discurso de controle.

A estética da fantasia indica algo interessante: não é o bandido violento, mas o bandido simbólico — aquele que transgride códigos sociais.

O lenço cobrindo o rosto pode remeter:

▪︎ Ao cangaço (Lampião)
▪︎ Ao zapatismo
▪︎ Ao protesto contemporâneo

Mas aqui ele é floral — não bélico.
Isso suaviza e subverte o símbolo da criminalidade.

É banditismo como metáfora de resistência cultural, não como apologia à violência.

🎬 4. Relação com o filme "O Agente Secreto"
Se pensarmos no imaginário de espionagem, como no filme O Agente Secreto, o segredo é sempre jogo de identidade.

Mas a diferença aqui é que:

O agente secreto clássico é fruto do Estado.
O personagem da imagem parece fruto da rua.
Ele é um agente do carnaval.
Um infiltrado na história colonial.
Um observador por trás de óculos negros.
Há algo cinematográfico na composição:
um close central, fundo festivo, personagem isolado — típico enquadramento de anti-herói.

🌎 5. Multiculturalismo como estratégia
Essa fantasia não parece caricatura, mas colagem crítica.
Ela fala de:
Globalização estética
Hibridismo periférico
A cultura nordestina como centro e não margem
É uma “fantasia de classe” porque:
Ela usa símbolos populares.
Está inserida num ambiente de celebração pública.
Apresenta anonimato como proteção social.

✨ Síntese poética
Esse personagem é:
Um samurai de Olinda.
Um cangaceiro pós-moderno.
Um agente secreto do mangue.
Um monólogo ambulante.
Ele não mostra o rosto, mas expõe a mistura.
E na mistura, está o manifesto.

A fantasia viva:
      [Bloco Mangue Beat - Olinda - 2026]