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terça-feira, 16 de setembro de 2025

SENTENÇA


(Um bolero que comecei a compor depois que saí de de uma apresentação do cantor).

As ruas desertas me trazem lembranças
De sombras que dançam, no olhar que eu guardei
No silêncio da noite eu confesso o fracasso
De esperar por alguém que juro, não sei
Mas na brisa encontro um sinal do cansaço
Que o destino deixou para um outro alguém...

*Refrão*
Dividir os teus passos
Entre os meus braços
Foi o que mais esperei
Nem sabia o porquê
Mas agora eu sei...

É a falta que aperta
No canto da alma
É a dor que me leva
Pra longe da calma


Num copo vazio me afogo sozinho
Cada gole é uma lembrança cruel
Teu perfume ainda marca o caminho
Como batom borrado em um colarinho
E na mesa pequena eu refaço o carinho
De um amor que ficou
num quarto de hotel...

*Refrão*
Dividir os teus passos
Entre os meus braços
O que mais esperei
Nem sabia o porquê
Mas agora sei...

É a falta que aperta
Num canto da alma
É essa dor que me leva
Pra longdo Ramo, não espera isso de empresas. Nem de governos. As vezes você pode até contar com familiares. A vida é pra ser vivida. A gente nasce num grupo e morre nem sempre nesse grupo. Mas o que parece ser uma dureza é um sentimento completo: somos filhos de Deus e Ele nos deixa livres. Parece solitário, mas é herança. Para de se prender a essas relações humanas como a única totalidade do ser humano. As estrelas só estão juntas muito longe. Quando vistas de perto são isoladas.e da calma


O relógio repete segredos antigos
São passos perdidos que pulsam sem fim
O desejo é uma chama que arde sozinha
E a esperança é um vício que vive em mim

Ah... se eu pudesse voltar no tempo...
Ah... te abraçar de novo, ir por dentro...
Quem sabe amanhã, quem sabe tu vens
Se o amar é coragem, eu vou muito além.


Dividir os teus passos!
Entre os meus braços!
O que mais esperei!
Nem sabia o porquê!

Mas agora sei...

Sei que a saudade é sentença
E que a vida confessa
O meu canto é lembrança
Da paixão que não cessa...

(Refrão 2x)


quarta-feira, 3 de setembro de 2025

FLOR DE PITANGUEIRA



Ali por meados dos anos 90, na Ilha de Itamaracá, encontrava diversão entre acampar, e uma casa de veraneio. Nossa turma do bairro, e da escola, fincávamos uma barraca de camping entre Jaguaribe e o Pilar, sempre com a desculpa nobre da pescaria de rede de arrasto. Na prática, era mais conversa fiada, e bebedeira, do que pegar peixe, mas só o ritual de entrar juntos no mar, puxar a rede e discutir quem estava atrapalhando o serviço já valia a viagem.

À tarde, invariavelmente, em nossas voltas pela ilha, descobríamos casas com quintais murados de pitangueiras, coco, araçá e caju. Aquilo era um convite irresistível. Pitanga não se comprava — se conquistava. E nós conquistávamos com sacolas cheias, como se tivéssemos roubado um segredo da própria natureza. As manchas vermelhas nos lábios denunciavam a farra, mas quem se importava? Pitanga é dessas frutas que até no crime tem inocência.

Foi ali que descobri, entre uma sacola e outra, a flor da pitangueira. Não tinha a pompa dos ipês, nem a pose das helicônias. Era miúda, branca, quase um suspiro. Se a fruta é a festa, a flor é a oração antes da refeição. Descobri que, para notá-la, era preciso parar, baixar os olhos, prestar atenção. Não era para qualquer um. A flor parecia me ensinar que a pressa é o inimigo número um da beleza.

Com o tempo, percebi que havia uma filosofia inteira escondida naquela árvore. A pitanga nos sacudia de alegria imediata, mas a flor era outro departamento: o da promessa silenciosa. E talvez aí esteja a verdadeira lição. Porque, convenhamos, se a vida fosse só festa de pitanga, a gente não aprenderia nada além de chupar caroço. A flor lembra que há delicadezas invisíveis sustentando toda abundância.

É como se a própria natureza risse da gente: dá um fruto que mancha roupa como sangue, mas que ninguém consegue parar de chupar. E é também como se ela sussurrasse baixinho que, por trás do espetáculo, há sempre um chamado mais profundo — quase como se cada pétala fosse um lembrete de que o espírito precisa tanto de silêncio quanto de sabor.

Já eu, que aprendi com a flor, diria que ela é a parte mais reveladora da história. Porque no silêncio daquela brancura escondida, percebi que o mundo nos oferece pequenos convites de eternidade. A vida, afinal, não é só colher sacolas de pitanga. É também saber parar, respirar fundo, e reconhecer que até a coisa mais miúda pode ser uma janela para o infinito.

Então, se um dia você passar por uma pitangueira, não vá direto aos frutos como quem corre para o carnaval. Primeiro, procure a flor. Respire o perfume leve. Talvez descubra, como eu descobri em Itamaracá, que a maior riqueza não está no que se colhe, mas no que se promete.